sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sobre o que aprendi na escola publica...

Era uma manhã comum de terça feira, no segundo dia do ensino médio, estávamos todos animados, nós que estávamos ali havíamos superado o ensino fundamental e chegado ao médio. Naquele dia a primeira aula seria de geografia, o professor chegou atrasado, entrou sem dizer nada e começou a escrever no quadro, a maior parte da turma sequer notou sua presença. Ao terminar de escrever, ele disse a frase que mais ouvi de professores ao longo dos anos que passei na escola:

- Prestem atenção se quiserem, vou receber o meu salário no final do mês de qualquer maneira.

Ele foi nosso professor nos dois anos que se seguiram.

Em outra manhã teríamos aula de educação física, o professor chegou, colocou alguns jogos de tabuleiro sob uma das mesas e disse que poderíamos fazer o que quiséssemos, ele precisava dormir.

Nosso professor de educação física dava aula em três turnos e estava sempre cansado, era comum que nos deixasse livres para fazer o que quiséssemos enquanto dormia durante as aulas. Também não era incomum que ele faltasse.

Certa vez ouvi uma professora dizer a um daqueles alunos menos interessados que ele nunca seria alguém na vida e que jamais alcançaria algo grande, pois não estudava e não seria capaz de passar no vestibular.

Ele passou.

Todas essas histórias são verdadeiras e aconteceram comigo entre os anos de 2010 e 2012 em duas das melhores escolas da região noroeste de Goiânia.

Com todos esses problemas de motivação, organização e estrutura, como esperavam que aprendêssemos?

Nos anos que passei na escola publica não aprendi a diferenciar células eucariontes de procariontes, nem as leis de Newton, nem inglês, nem a história da humanidade ou sobre o clima na Ásia. Não aprendi a calcular a área da circunferência, nem aprendi a usar todas aquelas formulas matemáticas ou sequer quando usar as malditas crases.

Da nossa grade curricular aprendi realmente muito pouco.

De inicio acreditava não ter aprendido nada na escola, mas agora percebo que isso é tolice, não existe experiência na vida que não ensine nada.

Para mim e para todos os que estudaram ao meu lado, ou nas mesmas condições que eu, não havia qualquer motivação para aprender, Víamos nossos próprios mestres passarem dificuldades, aqueles que deveriam ser nosso maior exemplo de como os estudos poderiam melhorar nossas vidas.

Muitos professores tinham se formado ainda na ditadura militar e desde então não tinham tido a oportunidade de se atualizarem. Precisavam dar aula em mais de uma escola para complementar a renda e viviam a gritante desvalorização de seus salários, por muitas vezes incompatível com sua profissão.

Não havia alegria na escola. Todo mundo estava cansado e frustrado. Só depois de adulto entendi que é impossível ser feliz quando seu trabalho não resulta em nada. Um professor jamais será feliz se a estrutura e o sistema em torno dele fizer seus alunos desistirem de aprender, ou tirarem dele a motivação de ensinar.

A escola era como um presidio: cinza e amarelo desbotado, com grandes portões, grades nas janelas e portas e por vezes até policiais vigiando de um lado para o outro. E é exatamente assim que nos sentíamos, como presidiários de regime semiaberto, deixando a escola todo dia lamentando termos que voltar no dia seguinte. Não por acaso, por diversas vezes alunos planejaram fugas e arrombamentos dos portões da escola.

Entediados, sem aulas, sem lazer, maltratados e presos. Esse é o ambiente no qual se espera que um jovem desenvolva seu potencial?

Os pais que tinham dinheiro pagavam para que seus filhos estudassem em escolas que não tinham nenhum desses problemas. Conheço gente que ainda no ensino médio tinha aulas de musica, línguas estrangeiras, politica. Que tinha professores com doutorado. Colégios com piscina olímpica e quadras de piso emborrachado. Que tinham plantões de duvidas depois do horário das aulas. Tinham aulas de computação, com computadores que funcionavam de verdade. Ganhavam até DVD’s com o conteúdo estudado em sala.

Minha família mal tinha dinheiro pra comprar comida.

Posso não ter aprendido matemática ou química, mas aprendi que na vida nem todos tem as mesmas oportunidades ou mesmo oportunidades parecidas. Que inclusive alguns não têm nenhuma oportunidade.

Dos 40 alunos que estudaram comigo no ultimo ano do fundamental, menos da metade chegou ao ensino médio. Dos 120 alunos que junto comigo entram no médio, menos de um terço chegou ao terceiro ano. Dos 23 alunos da minha turma do terceiro apenas 6 chegaram ao ensino superior.

Ao longo dos anos vi meus amigos mais próximos concluírem que não valia a pena estudar. Vi muitos deles desistirem, muitos seguirem caminhos sem volta.

Vi muita gente sem oportunidades para seguir.

Não estávamos preparados para o mundo lá fora. A escola publica não nos preparou para brigar por nosso futuro.

A primeira vez que nosso caminho cruzou com o dos jovens da elite foi no vestibular, estávamos mal nutridos e desarmados indo enfrentar soldados, que se prepararam a vida toda para nos enfrentar. Éramos como amadores enfrentando profissionais treinados.

Não tivemos chance.

O vestibular é a barreira definitiva de segregação social. nele não é testada a sua capacidade de cursar a faculdade, mas a sua origem. Aqueles que tiveram que contar com o ensino público não tem chance, pois os testes cobram uma serie de conhecimentos que são ensinados apenas nas escolas particulares.

Sim, eu passei no vestibular. Alguns poderiam argumentar que sou um exemplo de que as oportunidades são dadas, e jogar nas costas do indivíduo a responsabilidade por ele não ter conseguido um lugar ao sol nas trevas dos nossos abismos sociais, o que seria imaturidade.

Tenho maturidade e consciência para compreender que se consegui foi em consequência de muitas condições favoráveis que tive. Em grande parte por ter tido sempre uma facilidade acima do normal para aprender. Em parte por ter conhecido alguns poucos bons professores que acreditaram e me incentivaram a lutar. Em parte também por ter me criado “sozinho” o que me permitiu desenvolver meus próprios conceitos de certo e errado e que acima de tudo me permitiu experienciar muitas faltas e excessos que mais tarde contribuiriam para que eu tivesse maturidade e senso crítico. 

O que de certa forma me capacitou para brigar por minha vaga na universidade.

Ainda assim tive que pagar um curso pré-vestibular com meu primeiro emprego para preencher as lacunas que o ensino público deixou.

Lembro-me bem que a escola pública foi o último lugar na minha vida que frequentei onde a proporção de negros presentes era coerente com a proporção de negros da cidade. De lá para cá, superada a barreira da segregação do vestibular, fui passando a frequentar espaços elitizados, como a própria universidade, que são dominados por brancos.

Talvez se eu fosse negro ou mulher nunca tivesse conseguido.

O que aprendi na escola pública? Aprendi sobre injustiça e desigualdade. Sobre o mundo real, sobre a vida ser dura. Sobre preconceito, racismo, machismo e sobre barreiras intransponíveis. Aprendi a ter a humildade de saber que se hoje tenho uma vida melhor é porque tive mais sorte do que mérito. Sorte daqueles que tem, pois os que não têm não tiveram escolha.

Aprendi que todos mereciam uma chance de brilhar, mas que nem todos terão.

Essas coisas que tomo como óbvias e me formam como pessoa e como cidadão, não posso assumir que sejam óbvias para todos. Nenhum texto nem nenhuma imagem consegue substituir a experiência.

O que aprendi na escola pública não ensinam nas melhores escolas particulares e, diferente das fórmulas de matemática, são coisas que levo para a vida toda.


Johnathan Alves Damasceno de Barros


Referencial teórico e textual:
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